Comportamento Social

Vampiros emocionais

7 de agosto de 2017

por Observadora


Existem pessoas na vida que te usam como bengala, apoio emocional, cobertor pra carência. Até que um dia a bengala esteja gasta, o apoio quebrado e o cobertor esfiapado. Troca-se então por outro e assim sucessivamente.

O que não passa pela cabeça dos que usam é o cuidado que se deve ter pelas coisas, o importante é somente tê-las e usá-las. Triste é ver um padrão de um usuário que vira escravo do próprio bem-estar, causado pelo mal-estar que proporcionou.

O amor é algo lindo, mas que muitas vezes nos cega. Me relacionei com esse rapaz que sempre pulava de relacionamento em relacionamento, me contava que ninguém o entendia (nem os amigos), que os pais não davam a mínima pra ele, que preferia se isolar do convívio social. Criou um contexto onde seus problemas pessoais justificavam algumas de suas atitudes e desprendimentos. A primeira vez que saímos a conversa quase não teve fim, tínhamos inúmeros assuntos em comum, foi paixão à primeira vista. Na primeira semana que nos conhecemos me pediu em namoro.

Com você é diferente.”

E por acreditar naquela premissa de que o amor muda as pessoas, começamos um relacionamento que tinha lá seus altos e baixos, mas nada que não pudesse ser ignorado em nome do sentimento. Ele era difícil, mas ia melhorar, ia amadurecer, só precisava de tempo. Houve dias em que não cabia em felicidade, me sentia a mulher mais feliz do mundo, outros em que chorava escondida no banheiro que ficava ao lado do quarto dele. Ficamos juntos até o dia em que adoeci, até o dia em que não consegui sair de casa por semanas e tive que abandonar a faculdade por causa de uma crise depressiva, que desencadeou uma fobia social e me jogou no fundo do poço me fazendo descobrir que o buraco era mais profundo. Ele sumiu quando mais precisei, quando necessitei do apoio da pessoa que era meu melhor amigo, mas que nunca realmente foi. O abandono me fez sentir ser o ser mais imprestável desse mundo.

Quem pode conviver com alguém feito eu? Ele realmente fez o certo em seguir com a vida, eu só iria ser um peso”.

Não se passou pela minha cabeça o quanto a atitude dele tinha sido covarde e desleal. Não sabia que antes de mim ele já havia reproduzido isso com outras moças. Mas a cegueira ainda me impedia de fazer essas resoluções e de saber de todo o contexto. Para minha sorte ela não durou muito tempo. Na mesma semana do término ele já estava com uma moça e logo depois começou a namorar com outra. Um amigo de infância dele me confidenciou que não gostava dessa atitude, mas que era o jeito dele lidar com as coisas. O livre arbítrio está nas mãos dos jogadores, ganha quem tiver a melhor estratégia ou quem souber administrar melhor o que a vida nos dá. E por mais que eu quisesse entender o motivo que o levou a me virar as costas num dos maiores momentos de fragilidade da minha existência, algumas coisas acontecem pelo mais simples motivo do “sim, porque eu quis”. E coube a mim respirar fundo e me reerguer aos poucos. Faz parte do jogo.

Tempos depois li um texto incrível da Débora Nisenbaum, que me deu um estalo e me ajudou a compreender ainda mais o quanto me submeti ao erro de acreditar que dando meu melhor poderia receber o mesmo em troca. Alguns fazem do amor apenas uma desculpa para enganar a solidão e a árdua tarefa de lidar consigo mesmo, transferem isso para a pessoa que se relacionam e esperam que ela os preencha de alguma forma.

Acontece: amadurecemos e aprendemos que as relações vão muito além de uma conversa boa, de alguns dias bons. É compromisso, cuidado, respeito e companheirismo. É querer bem e compreender que as pessoas não são objetos descartáveis prontas para o uso até quando forem convenientes.

Texto originalmente publicado por Celina na publicação digital Fale Com Elas

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