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A vida de uma refugiada: “Você não sabe em quem confiar”

12 de julho de 2017

por Observadora

Em um assentamento de trânsito na Europa, mulheres e meninas explicam porque se sentem mais seguras dormindo no frio.

Por serem mulheres, refugiadas passam por uma série de dificuldades extras [Créditos: Mona van den Berg/Al Jazeera]

“Nós nunca dormimos [no mesmo horário]. Uma de nós está sempre acordada. Já ouvimos muitas histórias de mulheres que foram roubadas”, diz Samaher, 38 anos, de Bagdá. Ela tem olhos escuros e uma voz suave e triste.

Três semanas atrás, ela fugiu do Iraque com seu bebê e duas amigas. Agora ela está no assentamento de trânsito para refugiados em Vinojug, na fronteira entre a Macedônia e a Grécia, esperando o trem para a Sérvia.

“Eu estou tão cansada”, diz. “Mesmo quando é minha vez de dormir, não consigo. Eu estou sempre com medo que algo possa acontecer”.

Apesar do sol estar brilhando, está amargamente frio no assentamento. Centenas de refugiados tentam se aconchegar nas tendas grandes e amornadas pelos aquecedores do pátio aberto. Em um dos bancos de madeira está sentada Manal, 30 anos, de Damasco, capital da Síria. Suas duas filhas, de 3 e 4 anos, agarram-se à ela, enquanto o filho de 10 anos brinca em outra parte da tenda.

Grávida de seu quarto filho, Manal está viajando há duas semanas. Ela cruzou o Mediterrâneo em um barco de borracha e andou por quilômetros. “Quando você está grávida, essa jornada é muito difícil. Você precisa alongar bastante enquanto anda”, ela suspira.

Para ela, é muito mais difícil para uma mulher estar na condição de refugiada do que um homem. “Nós temos que cuidar das crianças. Isso é uma tarefa que nunca acaba. É mais fácil para os homens, eles só precisam se preocupar consigo mesmos”.

No espaço supostamente “child-friendly” (que aceita e tem espaço para crianças) do assentamento, Nameen, da cidade de Homns (Síria), cuida de sua pequena bebê. Ela entrou em trabalho de parto enquanto viajava pela Turquia. “Felizmente eles conseguiram me levar para o hospital a tempo. Deu tudo certo no parto”, diz a jovem de 25 anos, com um fatigado rastro de sorriso.

Nameen ficou no hospital por dois dias, descansou por mais 10 na Turquia, e então atravessou o Mediterrâneo em um bote com a sua filha de poucos dias no colo.

“Tudo que eu pensava era na minha menina, eu tinha muito medo que ela se afogasse ou adoecesse. Estava muito frio. Ainda sigo muito preocupada com a segurança dela, dia e noite.”

As outras mulheres de Vinojug concordam: ser uma refugiada é muito mais difícil do que ser um refugiado.

As autoridades não entendem os perigos específicos enfrentados por mulheres e crianças, deixando passar despercebidos sinais de violência, diz Jelena Hrnjak da ONG sérvia Atina [Créditos: Mona van den Berg/Al Jazeera]

Mulheres Refugiadas

Recentemente, a Anistia Internacional e a UN Refugee Agency (UNHCR) apresentaram relatórios sobre a posição vulnerável das mulheres refugiadas e os perigos que elas enfrentam.

A Europa está falhando em prover a proteção básica que elas precisam, reportou a Anistia Internacional.

Este problema é, agora, um dos mais críticos, devido à alta e crescente porcentagem de mulheres entre os refugiados que atravessam pela Europa. De acordo com a UNHCR, no verão de 2015, um quarto dos refugiados eram mulheres e crianças. Em 2016, eles representavam 55% desses refugiados.

Todas as mulheres entrevistadas para os relatórios da Anistia disseram que se sentem inseguras e ameaçadas durante vários estágios de suas jornadas, afinal, mulheres correm mais risco de tornarem-se vítimas de violência, roubo e extorsão.

Manal explica: “Geralmente, mulheres carregam o dinheiro da família com elas, porque os homens pensam que elas não serão importunadas e assaltadas, mas isso acontece o tempo todo. Meu marido viu com os próprios olhos uma refugiada sendo atacada por Sírios que cortaram sua garganta e levaram seu dinheiro”, diz.

Há também o risco de estupro e assédio sexual por contrabandistas, guardas da segurança, policiais e até mesmo os próprios refugiados. Alguns contrabandistas tentam coagir mulheres a trocar sexo por preços menores para cruzar fronteiras.

Em muitos desses assentamentos de trânsito, homens e mulheres dormem juntos nas mesmas tendas, e têm de usar os mesmos banheiros e chuveiros. Nos relatórios da Anistia, mulheres descrevem as estratégias que usam para minimizar os riscos: muitas deixam de comer ou beber para que não precisem usar o banheiro; algumas saem dos assentamentos para dormir na rua, pois se sentem mais seguras lá.

“Sempre tem alguém que quer tirar vantagem dessas mulheres”, diz Vladimir Bislimovski, que trabalha na ONG La Strada. A ONG oferece assistência à mulheres e crianças em Vinojug. “Mas as mulheres nem sempre falam abertamente sobre suas experiências, especialmente quando se trata de violência sexual. Elas se sentem muito envergonhadas para falar”, diz.

Para algumas delas, pode até ser perigoso falar sobre, acrescenta. Bislimovski. “Elas correm o risco de parentes homens considerarem que sua ‘honra’ foi violada caso descubram que elas foram estupradas. Então permanecem em silêncio. O que significa que não buscam ajuda, e que os agressores saem impunes”, afirmou.

“Recentemente descobrimos duas meninas afegãs que foram estupradas por uma gangue numa terra de ninguém entre a Hungria e a Sérvia”, conta Jelena Hrnjak, da ONG Atina. “Descobrimos isso apenas porque durante o ato houve um conflito de gangues onde um dos membros foi esfaqueado até a morte. Se não fosse por isso, ninguém ficaria sabendo”.

Vítimas de tráfico humano

Hrnjak está apurando informações sobre problemas específicos enfrentados por mulheres refugiadas para que assistentes sociais sejam treinados para reconhecer estes riscos. “As autoridades aqui não tem absolutamente nenhum foco nos riscos que as mulheres refugiadas correm. A conversa deles é geralmente sobre comida e roupas, mas ninguém fala sobre segurança”, explica.

Na estrada e no meio do caos dos assentamentos de trânsito, tudo pode acontecer com mulheres e jovens moças. Hrnjak sabe de casos onde mulheres foram forçadas a trabalhar para contrabandistas e traficantes. Quando o dinheiro delas é roubado, elas não podem seguir viagem. Mas têm de deixar os países e assentamentos de trânsito em 72h. Logo, elas precisam fazer de tudo por dinheiro. “É assim que elas se tornam vítimas de tráfico humano”, conta Hrnjak.

Bislimovski compartilhou a história de duas crianças sírias, de 8 e 15 anos, que foram deixadas em Vinojug por pessoas que evidentemente não eram suas parentes. “Essas pessoas (que fazem os transportes de refugiados) perceberam que iria custar muito para elas atravessar a Europa com garotas, e que não queriam correr esse risco”, disse. “É muito claro que as intenções das pessoas que as deixaram lá não eram boas. Não é a primeira vez que meninas refugiadas são forçadas a se prostituir”.  Bislimovski também conta que a garota de 8 anos desenhou imagens de machados e sangue na ONG. “Por enquanto, elas estão alocadas num abrigo”, diz.

Dentro de uma das tendas, Noura Hassan acende um cigarro. A sociável mulher de 50 anos é curda (do povo curdo, grupo étnico do Oriente Médio) e do Iraque. “Minha casa foi bombardeada, a maioria de meus parentes está morto. Meu marido fugiu do Líbano há um tempo, e eu estou tentando levar minhas crianças para a Alemanha agora”, explica Noura.

Ela estava viajando sozinha, mas agora entrou em uma família que conheceu durante a travessia para a Grécia. “Você não deve viajar sozinha se for mulher”, diz. ” Eu não tenho medo, mas já ouvi muitas histórias coisas ruins acontecendo com mulheres”. Ela descreve sua própria e assustadora experiência na fronteira turca, onde os guardas não queriam lhe deixar passar. “Eles estavam gritando e batendo em pessoas. Eu esperei a noite toda. No final consegui cruzar a fronteira sem que eles percebessem”, diz.

“As pessoas dizem que as mulheres estão protegidas, porque viajam em família”, conta Hrnjak. “Mas há muitas mulheres solteiras entre os refugiados. Para a segurança delas, se juntam a outros grupos, para que pareça que estão entre familiares. Mas os homens nesses grupos nem sempre estão bem intencionados. Sem falar que, mesmo em família, muitas mulheres sofrem com violência doméstica.”

“Os homens tendem a descontar a tensão da estrada nas mulheres. Na ONG, tivemos mulheres do Afeganistão que eram constantemente espancadas por seus filhos mais velhos. Vemos homens batendo nas esposas na nossa frente”, continua Hrnjak.

As temperaturas são extremamente baixas no assentamento, mas algumas mulheres preferem dormir no frio do que dividir tendas aquecidas com homens [Créditos: Mona van den Berg/Al Jazeera]

“É muito perigoso para uma garota”

Samaher agora está sentada na estação de apoio da Cruz Vermelha, onde sua pressão estão medindo sua pressão. Ela sofre de dores de cabeça e sua pressão arterial está muito alta – possivelmente uma consequência de todo o estresse enfrentado.

“Vemos muitas mulheres aqui,” diz Aleksandar Jonuzoski, que trabalha na estação de apoio da Cruz Vermelha. “Muitas delas sofrem de infecção urinária pois bebem pouca água, não têm acesso a banheiros limpos e não estão acostumadas com o frio”, explica. Ele também vê muitos casos de mulheres grávidas. “30 por turno”, conta.

Muitas grávidas sofrem com sangramentos e abortos espontâneos. “Elas passam por situações estressoras, precisam ficar muito tempo em pé em filas, são espremidas em multidões – é tudo muito ruim para uma grávida. Fazemos o melhor possível para que elas sejam levadas aos hospitais. Mas as vezes elas insistem em seguir a jornada para cruzar as fronteiras. E algumas delas precisam até pedir permissão aos maridos antes de ir ao hospital”, diz.

A medida que anoitece no assentamento, o céu vai ficando rosa por trás do nevoeiro das montanhas. Há uma multidão de refugiados em frente ao casebre onde as roupas quentes são distribuídas. Entre eles, está Marwa, de Aleppo, Síria. O cabelo loiro-escuro da jovem de 18 anos escapa do seu gorro de tricô decorado com pequenas flores. Ela está viajando há 10 dias com sua família e namorado. “Durante a travessia pela Grécia perdemos toda nossa bagagem com roupas extras. Estamos passando muito frio desde então”, diz a moça. “Mas o pior aconteceu na Síria. Soldados tentaram levar meu dinheiro e me apalparam em todas as partes possíveis. Eu estava muito assustada. Mas eles não acharam meu dinheiro. Eu escondi nas minhas roupas íntimas. É muito perigoso para uma menina ser refugiada. Na estrada, você não sabe o que esperar. Nem em quem pode confiar”, diz Marwa, sorrindo timidamente.

Matéria originalmente publicada no Al Jazeera pela jornalista Renate Van der Zee e traduzida por Lara Ximenes, do Observatório Feminino.

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