Comportamento Social

Inteligência Financeira: o dilema entre economizar e gastar

5 de outubro de 2017

por Observador

O clichê de todo financista (ou coaching financeiro) gira em torno das decisões que tomamos hoje e as suas inevitáveis repercussões no futuro. Sempre somos orientados a colocar tudo na ponta do lápis, ou em uma planilha de Excel, ou, para os mais modernos, nos aplicativos dos smartphones, gerando uma radiografia econômico-financeira das nossas vidas, apontando todas as células cancerígenas que minam a nossa qualidade de vida e independência financeira de longo prazo.

A busca por essa tão sonhada liberdade financeira tem diversos significados, variando de acordo com a necessidade e com o conceito individual de cada cidadão em desenvolvimento cognitivo financeiro – a famosa inteligência financeira. Melhor detalhando, para alguns, a independência financeira é poder deixar de trabalhar e viver de rendimentos, mantendo algum conforto e prazer, como viajar para o exterior, degustar de um bom vinho em um restaurante mais requintado, por exemplo. Para outros, a tal liberdade seria poder trabalhar com o que gosta e ainda ser (bem) remunerado por isso, trazendo uma extensão do lazer para o lado profissional. Pois, afinal, quem trabalha com aquilo que ama, não trabalha um dia se quer. Bem, são diversos os conceitos que podem permear sobre o quê, quando e como seria essa independência financeira, sem receitas prontas de bolo – o velho e conhecido perfil do investidor.

Contudo, pouca gente sabe que cerca de 60% da população brasileira ganha até um salário-mínimo (R$ 937,00) e um ínfima parcela da população ganha acima de 5 ou 7 salários-mínimos. Falar em economizar, poupar, aplicar para quem tem uma renda superior aos 5 salários, um padrão de vida mais confortável e acesso à informação e conteúdo, sem ficar cego mediante ao bombardeio de promessas e opções dos diversos profissionais e charlatões, já é um desafio complicado. Mas, é bem menos traumático do que traduzir para uma linguagem cuja realidade está presa, praticamente, entre o preço da cesta-básica, o valor do ticket do transporte público e o lazer (restrito) do final de semana. Aos ouvidos dos mais leigos, chega a ser uma ofensa para quem levanta cedo, enfrenta o inferno do transporte público, sobrevive a violência das ruas do país e atura uma jornada de trabalho castigante, falar e tentar demonstrar que a “cervejinha” do final de semana pode ficar em segundo plano, ajudando a economizar e a ter alguma renda a mais em um futuro que talvez nem chegue.

O Brasil é um país consumidor, não um país poupador e muito menos investidor. A ignorância financeira é uma epidemia nacional e só não atingiu a alguns poucos afortunados que, por iniciativa própria, por força da situação, ou por busca de qualificação mesmo, conseguem alinhar e potencializar rendas, custos e despesas. É quase irrisória a amostragem das pessoas que conseguem fazer um planejamento financeiro de curto, médio e longo prazo. Por isso que cerca de 60% da população tupiniquim está endividada e/ou inadimplente. Ah, e sem falar que existem pessoas que sabem fazer um bom planejamento financeiro, diga-se de passagem, aconselha aos outros, mas não vê sentindo nenhum em fazê-lo de uma maneira que possa usurpar os devaneios onerosos presentes. Vou explicar…

Hoje, com 20 ou 30 anos, um cidadão pode viajar para aquele festival de música eletrônica que ele sempre quis vivenciar, gerando uma despesa absurda, que poderia ser poupada e investida, antecipando a sua independência financeira, que poderia vir já aos 45 anos, por exemplo. Mas, será que aos 45 anos, esse mesmo cidadão teria vontade ou aproveitaria o festival da mesma maneira que o faria, cerca de 15 anos atrás, com menos preocupações e responsabilidades? Qual será o retorno financeiro equiparável a perda de momentos únicos e inesquecíveis? Será que abrir mão de experiências e acontecimentos presentes, em prol de um futuro estável e seguro financeiramente, é mais interessante? A racionalidade fala que sim, a mesma do Excel, dos aplicativos, etc. Mas, não consegue preencher muito bem o campo do peso e do valor das frustrações e arrependimentos por não ter feito.

Pois é, Inteligência Financeira pode ser adquirida, ampliada, desenvolvida e compartilhada. Mas, tudo tem seu preço, você está disposto a pagar hoje, ou mais na frente? Pode escolher, você vai pagar, de um jeito ou de outro…

Tiago Monteiro, Mestre em Consumo – UFRPE Consultor Econômico-Financeiro; Coordenador de MBA – CEDEPE Business School; Professor de Finanças Empresariais, de Análise de Investimentos e de Cenários Econômicos.

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