Noivas

Só que o amor não tem tempo pra bordar superstição #noivaOF

27 de agosto de 2015

por Talita Corrêa

Quando escolhi meu primeiro vestido de casamento – sim, mudei de ideia no meio do caminho -mandei uma foto por whatsapp para o noivo. A gente combinou que o casório seria simples e sem pompas. No meio dessa imaginação, nossas roupas também cabiam leves e sem muita frescura. Então, do mesmo jeito que quero opinar e participar da escolha dele, deixei que ele fizesse assim com a minha.

A reação da minha família quando soube disso beirou uma tempestade de pragas: “Você é louca? Vai ter azar a vida toda”. Eu ri, mas não me abalei, só escolhi outro vestido porque me arrependi do primeiro modelo (moderninho demais).

Meses depois, decidi pegar a aliança da minha vozinha amada, que guardo há anos, reformar e transformar num aparador. Assim, posso usá-la junto com a minha aliança de casamento e ter uma lembrança de vovó, que já se foi, sempre comigo. Quando falei sobre isso para a atendente do ourives, percebi uma cara feia. Ela, visivelmente transtornada, fez o pedido todo e, antes que eu fosse embora para analisar o orçamento, resolveu me perguntar:

“Sua vó foi feliz?”.

“Oi?”.

“Com seu avô… Sua avó foi feliz?”.

“Acho que ela viveu um casamento à moda antiga, e isso tem muitos lados ruins para a mulher. Mas era apaixonada por ele. No fim da vida, esqueceu que ele já havia morrido, e vivia repetindo seu nome pela casa… Tiveram quatro filhos, ficaram juntos até o último dia dele”.

“Hum… É que acredito muito nisso de energia. Sorte também passa como herança, sabe? Pense se você quer ter o casamento que sua avó teve”.

Pois é, fui procurar um serviço de aurífice e ganhei, de graça, uma amostra de maldição.

Mas como o roteiro da vida nunca atrasa, eu me vi, poucos dias depois, numa relojoaria antiga, conversando com uma senhorinha simpática, de 76 anos, que, ao lado do marido, trabalhou 59 anos no Centro de Recife, consertando e reformando relógios. Com esse negócio, criou três filhos, e os filhos dos seus filhos. Conversa vai, conversa vem, eu contei que estava prestes a casar… E casar, hoje em dia, era um negócio muito caro. Ela puxou sua almofada caixa de ovo e começou a me contar que quando casou, aos 16 ou 17 anos, sua mãe fez um bolo de laranja com açúcar para 30 convidados. A bebida foi conseguida com a troca de um rádio grande do pai. O vestido foi feito por ela mesma, que não gostava de costurar, mas sabia que a mãe já não tinha uma vista boa. Dois dias antes do casamento, seu pai foi ver o vestido. Ao olhar o modelo, ficou chateado com o comprimento midi da saia. A culpa era de Audrey Hepburn, que casou  com Mel Ferrer  em 1954 e popularizou o estilo.

“Tive que completar o tamanho da saia em um dia, porque ainda precisei sair para procurar um tecido parecido com o que eu havia usado. Meu pai era muito carinhoso e eu não queria desapontá-lo com uma besteira dessas. Na véspera da ‘festa’, Claudio (então noivo) foi na minha casa levar os sacos de açúcar que minha mãe pediu. Teve pena de ver que não dormi a noite toda e ainda estava com todos os dedos das mãos machucados. Pediu autorização aos meus pais para me ajudar. Sentou comigo no terraço da nossa casa e começou a repetir, meio torto, o bordado que eu estava fazendo. Terminamos tudo antes de escurecer. No outro dia, ele disse que já sabia que o vestido era bonito… Mas que, em mim, ele virava o vestido mais bonito do mundo. E eu tenho esse vestido até hoje. Quando Claudio adoeceu em 2005, e sabia que ia morrer, ele cismou de perguntar pelo vestido e  relembrar essa história. Eu brinquei que esse vestido foi minha praga. Passei 50 anos com o Claudio do meu lado, me ajudando a resolver as coisas da vida. Sendo meu companheiro daquele jeito meio torto e amigo dele. É como aquela música do Gil… ‘A linha e o linho‘. Conhece?”.

Conheço. E conheço gente que ainda se apega a tanta coisa pequena, dona Lêda. Que não casa em agosto, que não casa no dia 13. Que não usa pérola no vestido de noiva, porque a pérola simboliza a lágrima. Que acredita que a daminha deve, de todo jeito, entrar com flores para garantir fertilidade. E que se a irmã mais nova casar primeiro que a mais velha, a mais velha deve dançar descalça no dia do casamento da irmã. Que se o vestido da noiva rasgar, o casamento vai terminar com morte (juro, Dona Lêda). Que a noiva deverá usar uma coisa velha, uma coisa nova, uma coisa emprestada e uma coisa azul no casamento. Que os noivos não podem se ver na véspera da festa…

Um monte de coisa pequena, e quase engraçada, que só atrapalha o dia grande. E, como a senhora sabe, o amor trabalha dia e noite, sem descanso, cuida dos filhos, dos sonhos, dos medos, da doenças, e dos vestidos incompletos. Ele não tem tempo pra perder com superstição.

serie noivas buque

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