Elas por Elas

Deserto chamado UTI Neonatal

29 de dezembro de 2015

por Observadora

Levamos 1 ano e meio para engravidar. Não foi encontrada nenhuma causa para a nossa dificuldade e devido a minha idade, resolvemos fazer uma inseminação intrauterina, que é diferente da in vitro.
A primeira tentativa não deu certo. Resolvemos fazer uma segunda e derradeira e caso também não desse certo, iríamos tentar a adoção.gemeos
Deu certo. E dentro de uma possibilidade de 5%, fomos premiados com uma gravidez de gêmeos… Um susto, uma alegria, alguns temores, mas seguimos em frente. Tudo iria se ajeitar.
Meu pré-natal foi normal, sem qualquer intercorrência. Tudo excelente. Até que veio aquela dor na lombar… pensei que fosse a coluna. Não era. Internei com 25 semanas e 5 dias de gestação e não entendia o que estava acontecendo. Meu obstetra estava em viagem de férias e o tempo todo eu só ouvia que não podia me levantar da cama, pois um dos bebês, o menino, já estava encaixado.
Como assim?! Eu não fiz nada errado, não tinha nada errado comigo, o que está acontecendo?

Isso tudo ecoando dentro de mim e eu tendo que manter equilíbrio pois lia a dor no semblante de meu marido…e me mostrava serena, confiante, até que começaram a dizer que os bebês poderiam não sobreviver…
Chorei muito. Por dentro. Por fora, poucas lágrimas. Me despedi dos meus filhos, junto com meu marido. Tive medo de criar falsas esperanças. Me esqueci do quanto os planos de Deus são perfeitos pra nossa vida.
Após 2 dias de internação a equipe médica resolveu fazer o parto. Tive que optar pela cesariana, para que os bebês não tivessem mais um risco de morte. E eles nasceram. Não tiveram roupinha separada, lembrança de maternidade, aviso a amigos e familiares…quase nada. Eu estava horrível, cabelo desgrenhado, sem depilar perna, axilas, virilha…por pouco não fui pra sala de cirurgia 2 dias sem tomar banho. Um anjo, disfarçado de enfermeira intercedeu por mim e conseguiu autorização para um banho antes da cirurgia. E minhas bençãos vieram ao mundo: primeiro o menino, depois a menina.
Não vi meu filho na sala de cirurgia, apenas ouvi o médico dizer: o primeiro já veio! A menina precisou de cuidados imediatos, na sala de parto, e, por isso, me foi apresentada por alguns segundos. Segundos… é assim que eu me lembro do nascimento dos meus filhos. Foi tudo muito rápido, dada a extrema prematuridade dos dois. Não havia tempo para floreios.
No dia seguinte, foi conhecê-los na UTI. Meu marido já os tinha visto e me preparou para o quadro que eu iria ver. Melhor dizendo, tentou me preparar. Nenhuma mãe está preparada para uma UTI Neonatal. Silêncio, meia luz, aparelhos estranhos e tantos bebês… e lá estavam os meus, leito 3 e leito 14. Separados ao nascer e brigando pra viver. Tão pequeninos…
Fiquei pouco tempo lá dentro mas descobri que não podia sequer tocá-los. Chorei muito, por dentro. Por fora, a máscara da confiança e esperança…
Descobri que dores diversas passariam a ser minhas companheiras. A dor da alta. Pra uma mãe não é natural ter filhos e voltar pra casa sem eles. E sem a barriga. A ficha não cai. Eu queria ficar mas sabia que tinha que ir embora, me recuperar pois eles precisavam muito de mim. E eu deles.
E assim fizemos, todos os dias, eu ia para a maternidade ordenhar o leite para eles. Aprendi que choro, tristeza faz o leite diminuir e secar, que os prematuros recebem o leite por uma seringa através de uma sonda, e tantas outras coisas que jamais haviam passado pela minha cabeça quando pensei em ter um filho.
E foi assim, dia após dia, engolindo lágrimas, rezando para que tudo melhorasse, para que o bebê de outra mãe também melhorasse…Como somos solidários na dor… e como algumas pessoas não conseguem lidar com a felicidade de outras…
Descobri também, que muitas vezes, o gemelar maior não sobrevive. Na maternidade haviam 2 casos de gêmeos em que 1 havia falecido. Mais um temor para o meu coração amargurado…
E fomos em frente. Começamos a celebrar com a equipe cada mês de vida dos bebês, levando uma lembrancinha…tínhamos que formar uma corrente de esperança e empatia, afinal de contas, era nas mãos deles que se encontravam nosso maior tesouro.
E o tempo passou…tempo, intercorrências, quedas de saturação, retirada de tubo, CPAP, sonda, apnéias, hemorragia cerebral, prognóstico de sequelas…tanta coisa…tanta agonia… meu Deus, por que estou aqui? Por que não posso chorar? Por que tenho que ser forte? Não vamos sair daqui? Muitas perguntas, algumas respostas.
O tempo se cumpriu. Tivemos alta do CTI e ficamos mais 15 dias na pediatria para minha filha fazer desmame de cafeína. Ela teve uma parada cardíaca devido a uma convulsão, em plena madrugada. Quase foi embora. Quase.
Saímos da maternidade da mesma forma que chegamos. Nós 4. Muita alegria pelos nossos filhos, muita tristeza pelos que não conseguiram completar seu tempo e se tornaram anjos. Muita experiência gravada na carne. Agradecimentos eternos a tantas pessoas que nos acolheram nesse deserto chamado UTI Neonatal. E uma certeza: Deus tem planos pra cada um de nós e somente Ele sabe quais são.

Mara tem um casal de gêmeos, é funcionária pública, tem 40 anos e participou do projeto TEMOS QUE FALAR SOBRE ISSO, uma plataforma de relatos ANÔNIMOS de mães que passaram pelas mais diversas situações: depressão pós parto, transtornos ligados à saúde mental na maternidade e no período perinatal (desde a concepção até o primeiro ano do bebê), dificuldades durante a gravidez, sofrimento psíquico intenso, problemas com
amamentação, perda gestacional e neonatal, partos traumáticos, prematuridade extrema, gravidez de alto risco, processo de adoção, violência obstétrica, entre outros desabafos de mulheres que, desamparadas, não encontram ajuda ou apoio para falar sobre isso.

Mães com dificuldades em contar suas histórias por medo de serem consideradas incapazes de cuidar de seus próprios filhos, por vergonha, por insegurança, por se sentirem sozinhas ou qualquer razão que seja, têm um espaço de acolhida e suas vozes   serão ouvidas. Lá, podem falar como se sentem e compartilhar com outras mulheres, em situações semelhantes e de forma segura, seus sentimentos e angústias sem serem julgadas.

Observe mais: Sobre ver uma amiga morrer por causa de uma depressão pós-parto

Imagem: reprodução

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