Observatório Feminino

Do que eu falo quando eu falo de cultura do estupro

31 de maio de 2016

por Observadora

Quando eu era criança, estupro era uma palavra equivalente a um palavrão, que a gente nem dizia em voz alta. Estupro era uma coisa que acontecia longe, em becos escuros, com mulheres perdidas e desavisadas. Estupro, sussurrado, era o que nossas mães queriam dizer quando, meio sem jeito, nos alertavam sobre toques suspeitos e comportamentos estranhos aos quais deveríamos estar atentas, ainda que eles viessem de homens conhecidos. Ninguém falava sobre isso, mas de um jeito estranho a gente sabia. Eu sabia.

Tive o privilégio de viver muitos anos acreditando que estupro era uma coisa que só acontecia com outras pessoas, lá longe, nos jornais, por causa de um ou outro psicopata. Demorei a descobrir que estupro era uma coisa que podia acontecer com qualquer uma, em qualquer lugar, por qualquer um, como acontece com as mulheres brasileiras a cada onze minutos. Onze minutos, o tempo de você ler esse texto e ir até a cozinha pegar um café. Não existem becos escuros ou psicopatas o suficiente pra dar conta de acompanhar esses números.

Antes mesmo de entender completamente a ideia de um estupro?—?sua intensidade, sua dimensão?—?eu já sabia me proteger dele. Eu sabia como deveria agir, o que fazer, o que não fazer. E sei até hoje, isso faz parte de mim e de quem eu sou, algo tão natural quanto escovar os dentes depois das refeições. Eu penteio o cabelo, escovo os dentes, confiro as chaves, os documentos, tiro o celular do bolso e penso se estou vestida de forma apropriada pra ficar sozinha na rua depois que anoitece. Às vezes eu volto em casa e troco de roupa, do mesmo jeito que volto pra buscar o guarda-chuva se o céu me parece suspeito. Se vou pra casa de uma amiga, pergunto se preciso levar alguma coisa, que horas posso ir e se tem alguém pra andar até em casa comigo depois. Se vou sair com um cara novo, confiro se tem batom no dente, passo perfume, e aviso pelo menos três pessoas onde estou, com quem e passo a ficha completa: nome, sobrenome, fotos e perfil nas redes sociais?—?não pra saber a opinião das minhas amigas sobre ele, se é mesmo bonitinho, se seu curso é realmente legal, mas porque se acontecer alguma coisa elas vão saber por onde começar. O cara provavelmente está pensando se eu sou tão bonita como nas fotos ou tão legal como no Whatsapp, mas eu estou pensando se ele é legal o bastante pra não querer me estuprar.

Porque cultura é isso: “um conjunto de códigos sociais compartilhados pelos membros de um grupo ou sociedade, em constante modificação, relacionado aos contextos histórico, temporal e geográfico nos quais se inserem os sujeitos”, de acordo com a definição que anotei no caderno na minha primeira aula de Antropologia Cultural no segundo semestre da faculdade (sim, eu fui olhar). Por isso que é errado dizer que alguém é sem cultura, e classificar uma cultura como inferior ou superior tem a ver diretamente com aquilo que o observador entende como inferior ou superior (uma dicotomia que também está errada). Então, sendo eu uma mulher que vive numa sociedade patriarcal, um dos códigos que reproduzo e compartilho é o do estupro?—?se não o medo do estupro, para não generalizar a forma como ele afeta todas as mulheres, pelo menos a consciência da possibilidade do estupro?—?tão natural pra mim como usar roupas ou ceder o lugar pra idosos, e por ser natural é também muito mais violento. O quão horrível é eu estar acostumada à ideia de que posso ser violada a qualquer momento simplesmente por ser mulher e existir nesse mundo?

Quando penso nos meus medos, nos meus maiores medos, aqueles que só de falar eu sinto os olhos se enchendo de lágrimas?—?e mesmo assim estão na minha cabeça o dia inteiro?—?ele está ali. Eu tenho medo de perder as pessoas que eu amo e tenho medo de ser estuprada. Em comum, eles têm o fato de que não existe nada?—?NADA?—?que eu possa fazer pra evitá-los. Eu posso cuidar das pessoas que eu amo, posso orar por elas, posso dar todo o meu suporte, mas quem sou eu diante da morte? Da mesma forma, eu posso prestar atenção nas minhas roupas, posso evitar andar sozinha, mas no fundo sei que a única coisa que faz um homem estuprar uma mulher é a vontade e determinação dele de estuprá-la; então, enquanto eu continuar convivendo com homens, eu vou continuar convivendo com a possibilidade de ser estuprada, e não tem nada que eu possa fazer. Porque no fim são trinta e três contra uma, é um homem contra uma mulher?—?e o maior indício de que vivemos num mundo profundamente desigual é que mesmo numa disputa de um pra um é o homem que vai sair ganhando. Porque além da provável força, ele tem ainda  o poder e uma estrutura social inteira que vai legitimar e incentivar o seu comportamento. As coisas não estão melhorando.

Cultura do estupro é isso, esse conjunto de códigos sociais que estimula, legitima e banaliza o comportamento abusivo dos homens diante das mulheres?—?seu ápice se realiza na violação do seu corpo, mas ela é construída de outras pequenas grandes violências, como outros tipos de agressão física, o assédio sexual, a cantada nas ruas, a relativização do consentimento, a culpabilização da vítima, a romantização do abuso em músicas, filmes e novelas, as piadas machistas, as propagandas que objetificam a mulher etc., etc., etc. Assim, o cara não precisa ser um estuprador para compactuar ou reforçar a cultura do estupro: se você, queridão, já puxou uma mina pelo braço na balada, já a pressionou  na parede contra sua vontade, já beijou à força, já seguiu alguém na rua, já chamou de gostosa, já compartilhou foto com os amigos sem o consentimento dela, já engrossou a voz e deu aquela segurada firme no braço pra ela ver quem é que manda, se já duvidou da palavra de uma mulher e disse que na hora de fazer ninguém reclama, se você acha que a culpa é da guria que bebeu demais, se você vai atrás das meninas que bebem um pouco demais, se você acha que é só um filme, é só uma música, é só um elogio… então sinto  informar, mas você é parte do problema.

Quando soube do caso da garota do Rio de Janeiro, lembrei de uma questão que vem me incomodando bastante. Não sei se vocês sabem, mas eu estou assistindo Laços de Família no Viva, 16 anos depois da exibição original. Sempre disse que era uma das minhas novelas favoritas e sempre soube que o Manoel Carlos era machista, mas vê-la agora colocou tudo em perspectiva: primeiro eu descobri que tirando alguns barracos deliciosos e umas DRs inspiradas, a novela é ruim, simplesmente ruim, e depois que o Manoel Carlos é misógino DEMAIS. Uma das primeiras coisas que lembrei quando o termo cultura do estupro começou a pipocar sem parar no meu feed foi da Cintia e do Pedro.

O que eu lembro das primeiras vezes que vi a novela (porque sim, eu vi mais de uma) é que eles foram o casal frisson da trama, aquela coisa de gato e rato, tapas e beijos e todo o apelo que um casal formado pela Helena Ranaldi com o Zé Mayer peão no seu ápice pode originar. O que eu descobri foi que esse casal frisson, na verdade, é uma representação extremamente abusiva de um relacionamento, com várias insinuações de estupro e, se a intenção era romantizar essa dinâmica, a produção da novela falhou. O Pedro constantemente agarra  Cintia à força e provoca situações que vão deixar ela presa com ele. Presa no sentido de sozinha no haras no meio do nada, sozinha no carro numa estrada de terra, trancada numa casa isolada, trancada num vestiário sem roupa… Tudo isso enquanto ele tenta desesperadamente fazer com que ela ceda e transe com ele.

Ela resiste, ela bate, ela foge, ela cede até ele baixar a guarda e ela conseguir uma brecha pra literalmente sair correndo. Ela já o ameaçou  com um martelo e já disse inúmeras vezes que não quer nada com ele. As cenas dos dois se agarrando?—?ele tentando beijá-la à força e ela tentando lutar contra?—?são tão violentas, tão agressivas, tão incômodas, que eu não consigo mais assistir. Desisti depois do dia que ele a trancou  em casa, rasgou suas roupas e ia mesmo transar  à força (ou seja, estuprá-la) se ela não tivesse conseguido sair correndo, ameaçando ele com um martelo de construção (!!!). Cintia chegou em casa apavorada e chorando, mas logo em seguida veio uma cena em que ela lembra de tudo ao som de Amor, I Love You.

Fui conversar sobre isso com um amigo, que é uma das últimas pessoas no mundo que eu chamaria de troglodita ou homenzinho de merda, e ele disse que acha que ela se faz de difícil, mas gosta. Esse meu amigo é um dos poucos homens do meu convívio social que eu ousaria chamar de feminista, deixando de lado as problemáticas que isso envolve. E mesmo assim ele interpretou as cenas como uma mulher se fazendo de difícil, gostando e querendo tudo aquilo. O mais bizarro é que a cara da Helena Ranaldi em todas as cenas é de absoluto pavor e tristeza, o que vou interpretar como um ato falho, já que a narrativa da novela tem por objetivo impor justamente a visão da mulher que se faz de difícil, mas gosta. A mulher que no fundo quer ser domada. A?—?chorem?—?feminista que quando não está fugindo com cara de choro, aparece furtivamente na casa do Pedro e arranca uns beijos dele, e para a trama isso é suficiente pra justificar qualquer coisa.

Isso pra mim não faz a menor diferença, porque a novela é uma história contada por um homem, e a cultura do estupro?—?do qual essas novelas fazem parte?—?ensina aos homens que as mulheres dizem não quando querem dizer sim, e que toda mulher difícil, atrevida, feminista precisa mesmo é de um homem para domá-la.  Cintia ir atrás faz parte da fantasia, e eu nem lembro agora se  Pedro chega a mudar e ser um pouco mais sensível (risos), mas isso também faz parte da ilusão, é uma das coisas que mantém tantas mulheres em relacionamentos abusivos. A gente é criada para acreditar que é nosso dever consertar os homens, que ele é violento assim, mas eu boto fé que o meu amor vai fazer a diferença. Não faz, gente, não faz. Não é nossa responsabilidade, não é nossa culpa.

Não preciso dizer que com todas as amigas com quem eu conversei sobre a novela a opinião foi a mesma: de que a relação entre os dois era abusiva e que todas as cenas deles juntos eram extremamente violentas e desconfortáveis de se assistir. Porque a cultura do estupro é assim, diante de uma mesma situação, um homem enxerga uma mulher com vontade, embora tudo que ela fale e sua linguagem corporal digam o contrário, e isso basta pra que ele se sinta no direito de fazer o que quer; já a mulher percebe a vulnerabilidade da outra, o risco que ela corre, e pensa que poderia ser com ela. Porque eu já fui puxada pelo braço, porque já me beijaram sem meu consentimento, porque eu já me senti ameaçada por dizer não, porque eu já tive medo de ficar sozinha com alguns amigos, porque eu aprendi a não andar sozinha, porque eu aprendi a desconfiar de todo e qualquer homem antes de ter idade para entender os motivos.

Eu que já falei sobre assédio várias vezes fico pensando em qual é o propósito de repetir esse corolário, principalmente quando sei que a maioria das pessoas que me lê é mulher e não precisa ser lembrada de nada disso.

O negócio é que só na última semana tivemos três casos emblemáticos de violência que estão diretamente ligadas com gênero: uma apresentadora foi atacada por um homem que era obcecado por ela?—?e as mensagens perturbadoras de violência que ele escrevia sobre ela na internet foram interpretadas como declarações de amor; porque uma atriz famosa denunciou um ator famoso na justiça por violência doméstica com fotos e marcas no próprio corpo para comprovar?—?e foi ela que recebeu a maior parte dos ataques; porque uma garota de 16 anos foi estuprada por trinta e três homens, que a violentaram e a expuseram na internet?—?e mesmo assim há quem diga que há controvérsias sobre o caso porque não sei o que não sei o que lá. É muito difícil pensar, falar e discutir qualquer outra coisa. É muito difícil acreditar que vai melhorar. Como disse a Jana Rosa, zero clima de viver sendo mulher nesse mundo. Como escreveu a Nayyirah Waheed, todas as mulheres em mim estão cansadas.

Em meio a tanta barbárie e impotência, a única coisa que eu posso fazer é falar do que vejo, é mostrar a cultura do estupro nas pequenas situações da forma como eu a enxergo, porque eu também achava um monte de coisa normal até não ser mais; eu também achava que era só uma novela até perceber que músicas, novelas, filmes e livros não existem no vácuo; eu também já pensei que criminalizar o fiu-fiu era exagero até lembrar de como ele faz com que eu sinta medo, e eu preciso lembrar que sentir medo não é normal. A gente precisa falar sobre cultura do estupro em voz alta, em textão, em mesa de bar, em grito de guerra e parar de sussurrar a respeito como se tivéssemos algum tipo de culpa, porque estupro é um crime e crime nenhum é culpa da vítima. Essa vergonha não é nossa.

É isso que eu queria dizer.

Anna Vitória Rocha é jornalista.

Imagens: Reprodução

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