Variedades

Geração Y, eu morro de preguiça de você

4 de fevereiro de 2016

por Talita Corrêa

Renato Russo que me perdoe o estrago, mas se minha “geração Y” tivesse outro nome, seria “geração coca-cola-zero-e-também-light-com-toques-cítricos-do-limão-estilizado”.  Aquela geração que viu a internet discada se popularizar, que desbravou o mIRC, que, ainda pré-adolescente, foi endeusada por saber resetar o modem da família na sala de casa. A geração que ficou amiga íntima do Google e namorou o hotmail. Geração abençoada. Musa cibernética de todas as gerações da humanidade. Revolucionária da revolução digital. Gente jovem conectada, descolada, deslumbrada.

Nos deram poder e nós mostramos quem somos. Somos, 20 anos depois, esses adultos que se julgam especiais, cabeças abertas, capazes de conquistar tudo. Somos essa galera pé no saco que se sente altamente preparada, altamente motivada e altamente mais informada que nossos pais. Uau. Somos o ridículo da superioridade que a evolução pode trazer. Arrogantes, irritantes, cheios de sabedoria desnecessária. Somos o orgulho besta do lado incomum.

Mudamos tudo que tocamos. Amamos tudo que mudamos.

Nossos brigadeiros e coxinhas viraram brigadeiros e coxinhas gourmets. Nossas varandas e piscinas viraram varandas e piscinas gourmets. O suco de laranja com mamão virou suco detox. A água ficou saborizada com notas florais antioxidantes. A salada virou mix de folhas e o molho de alecrim virou molho de ervas aromatizadas. A cabra do leite especial tipo A+ foi canonizada. A consulta no dentista é virtual com agenda otimizada.

A bicicleta virou bike e depois virou símbolo de lifestyle. A trilha no morro do Peitinho virou símbolo de lifestyle. O vegetarianismo virou símbolo de lifestyle. A sala do cinema ganhou versão de lux.

O prazo agora é deadline. A equipe agora é team. Nossos espaços compartilhados são coworking. Instrução agora é briefing. Orçamento agora é budget. E com sotaque. Pra valorizar.

A maquiagem basiquinha-vou-ali-na-padaria inclui primer, BB cream e pó translúcido. A sobrancelha tem design exclusivo, as unhas têm esmalte em 3D e as nossas mechas metade loiras são californianas, ombré, dip-dye e texanas.

Nossas vocações são multi. Nossos talentos são multi. Nossas tarefas também.

Reconhecemos o valor do vintage porque somos detentores de uma consciência histórica universal bem desenvolvida em sintonia com o reconhecimento do eu e a preservação do meio ambiente.

Fazemos artesanato de conchas em ateliê com atendimento personalizado. Não trabalhamos em casa, mas em esquema home office. Pesquisamos sobre religiões politeístas primitivas. Usamos palavras aleatórias em alemão ou francês. Estudamos com Master of Business Administration. Somos CEOs, SEOs, trainees e headhunters. Temos app para não engravidar.

Descobrimos a profissão youtuber, digital influencer e consultor de imagem. Descobrimos os benefícios da couve folha. Trabalhamos para comprar um colchão massageador com magnético e infravermelho longo. Fazemos acupuntura e ioga porque nos sentimos muito ligados à milenar cultura oriental. Fazemos biquinho com pau de selfie porque somos descontraídos e desapegados. Escrevemos textões no Facebook porque somos inteligentes e politizados.

Nossos bancos criaram nova categoria de cliente VIP do VIP. Nós nos candidatamos. O mercado criou as barrinhas de pecã e coco. Nós experimentamos. Não temos necessidade da tecnologia nano cristal. Nós inventamos.

Nós queremos personal viagem e coaching pessoal. Fazemos tatuagem de bambu na Tailândia e botox capilar. Fazemos dieta ortomolecular e compramos cachorro exótico da Pomerânia. Usamos óculos de sol feitos com fibra de maconha. Comemos cachorro-quente com luva. Bebemos termogênicos com cafeína e óleo de cártamo. Demonizamos o glúten, o açúcar e a fome. Abreviamos quase tudo. Procuramos wi-fi. Colocamos celular no seguro. Vamos à cozinha molecular e chamamos isso de experiência multissensorial. Gravamos as férias em full HD.

Somos diferentões.

Somos chatos.

Somos, no fim das letras,  a última coca-cola do deserto.

Uma latinha quente de “coca-cola-zero-e-também-light-com-toques-cítricos-do-limão-estilizado”.

Temos gosto de remédio. Espumamos. Sem gelo. Ô geração intragável…

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Observe mais: A bula de uma mulher de quase 30

Imagens: reprodução

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