Variedades

Betinho Gomes propõe que a mudança da cultura de violência nos estádios de futebol comece por Pernambuco

22 de julho de 2014

por Talita Corrêa

Vestir a camisa que estava pendurada num cabide especial. Combinar as meias e o sapato. Amarrar a bandeira sobre os ombros. Entoar o hino do seu time de coração e seguir para o domingo de futebol.

O que essa paixão nacional tem de beleza e quase-poesia, tem também de feiura e quase-guerra.

Vestir a camisa que estava pendurada num cabide especial. Combinar as meias e o sapato. Amarrar a bandeira sobre os ombros. Entoar, sem coração, os primeiros insultos ao adversário, pintar o rosto como soldado e seguir para o domingo de combate.

Para muitos, futebol é uma contenda que já dura mais de 20 anos. Desde abril de 1988 já foram registradas quase 250 mortes de torcedores brasileiros. No Nordeste – lugar onde estão algumas das maiores e mais bonitas torcidas do país – estão também alguns dos estádios que mais vezes foram palcos de violência. E essa conta aumentou no último 2 de maio, quando Paulo Ricardo Gomes da Silva, de 26 anos, foi atingido nas imediações do Arruda por um vaso sanitário e morreu logo após o jogo entre Santa Cruz e Paraná, pela Série B do Campeonato Brasileiro. Foi o caso mais chocante de selvageria no futebol pernambucano. Mas não o único difícil de digerir. Em fevereiro de 2013,um  torcedor do Náutico, Lucas Lyra, de 19 anos,  sobreviveu ao ser baleado na nuca minutos antes do jogo Náutico x Central, em frente ao Estádio Eládio de Barros Carvalho, nos Aflitos.

No jogo entre Náutico e Sport pela Sul-Americana na Arena Pernambuco, há quase um ano, mesmo com o reforço efetivo de 820 policiais, o clássico foi marcado por ameaças e tumulto entre as torcidas organizadas.  Na final do  Campeonato Pernambucano, em abril, entre os mesmos times, um homem espalhou pânico ao sacar uma arma e disparar tiros para o alto no estacionamento do mesmo estádio. As mesmas histórias. As mesmas vítimas. A mesma impunidade.

Essa mesmice levou o presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Pernambuco, deputado Betinho Gomes, do PSDB, a apresentar à câmara dois projetos de combate à violência entre as torcidas pernambucanas. O primeiro sugere a instituição do dia 2 de maio – data da morte do torcedor Paulo Ricardo – como Dia Estadual da Paz nos Estádios.

“A ideia é que, todos dos anos, esse dia nos remeta à reflexão. Que a gente possa relemebrar o episódio chocante registrado no Arruda para repensar essa cultura de violência no esporte. A data não será de comemoração, mas um incentivo à conscientização”, resume Betinho, lembrando que o segundo projeto de lei  tem funções mais efeitivas, instituindo o programa Paz nos Estádios, a fim de cobrar maior envolvimento e responsabilidade das entidades esportivas nos casos de violência entre torcedores.

Programa Paz nos Estádios

De acordo com o programa, a agregação de prática esportiva de qualquer natureza ou modalidade que permitir, incentivar, colaborar ou deixar de coibir ilícitos praticados por seus torcedores, ficará sujeita a advertência, multa ou suspensão de repasses de verbas públicas ou incentivos fiscais estaduais  (como o Programa Todos com a Nota) por até seis meses.

“Existe uma necessidade urgente de cobrar soluções da Federação Pernambucana. Os estádios, por sua vez, também têm que assumir o compromisso de coibir a violência nas suas imediações. Hoje não há fiscalização em relação às ações das torcidas. Ninguém assume a incubência de combater efetivamente essa hostilidade que em nada combina com o mundo esportivo. Os clubes que fecham os olhos para as agressões entre torcidas têm que ter suas regalias cortadas.  O que preconiza o Estatuto do Torcedor deve ser severamente aplicado. Mas por parte do Governo e das instituições, o que falta é rigor nesse processo. O que vemos é uma certa conivência com o problema. E segue o jogo do empurra-empurra… A forma como um tema tão grave vem sendo tratado é precária, inaceitável. A proibição das torcidas organizadas está longe de ser suficiente para coibir a violência nos estádios pernambucanos. Estamos no limite, nos vendo reféns das autoridades públicas e desportivas”, resume o deputado.

O programa ainda prevê incentivos junto à Rede de Proteção e Defesa do Torcedor para reconhecer e premiar anualmente torcidas que dão exemplo de civilidade e fair play. Mais: estabelece normas programáticas e curriculares para a rede de ensino estadual e municipal, visando desenvolver nas crianças a cultura de placidez e boa convivência nos esportes. A mais importante comissão temática da Assembleia Legislativa – a de Constituição, Legislação e Justiça – já aprovou o Projeto de Lei 1986/2014  que, após reajustes e análise de outras comissões, será encaminhado para votação em plenário.

“Esse projeto quer articular, integrar, organizar e coordenar as atividades dos órgãos da Rede de Proteção e Defesa do Torcedor, constituída pela Secretaria de Educação do Estado e dos municípios, Juizado do Torcedor, clubes de futebol e Federação Pernambucana de Futebol. A nossa intenção é complementar às leis já em vigor,  envolvendo vários atores públicos e sociais como a própria Federação, clubes, governo estadual e os municípios, além do MPPE e o Judiciário. Algumas propostas da matéria são simples, como,  por exemplo, realizar o cadastramento dos torcedores para ajudar na identificação dos maus torcedores e afastá-los dos campos. Foi essa medida que ajudou, em grande parte, a combater a violência provocada pelos holigans na Inglaterra”.

Por onde começar

Justamente esse olhar do parlamentar para o que acontece lá fora deve viabilizar uma reforma inédita para o que acontece aqui dentro quando o assunto é futebol e violência. É uma tragédia mundial, reconhece Betinho, mas que em outros países já está sendo, há muito, repensada.  Em 5 de abril  de 1902, em Ibrix Park, campo da equipe escocesa Glasgow Dangers, uma guerra entre as torcidas deixou o saldo de 25 mortos e 483 feridos. Em Bruxelas, na conhecida tragédia de Heysel, em 1985, centenas de feridos e 39 mortos atraíram a atenção mundial, provocando a estruturação dos comitês em diferentes nações. Esses e outros episódios de grande repercussão levaram à criação de legislação específica aplicável aos atos de violência, como o Comitê Permanente da Convenção da Europa (1985), Comissão Nacional contra a violência nos Espetáculos Esportivos da Espanha (1990), Associação Francesa para o Desporto Sem Violência e para o Fair Play (1992) e Conselho Nacional contra a Violência no Desporto de Portugal (1998). Agora é o Brasil que precisa fazer o Estatuto do Torcedor do Futebol – Lei Nº 10671/2003 – realmente ser respeitado. Betinho acredita que a mudança pode, de fato, começar aqui no Nordeste, seguindo de uma ponta a outra do país.

Tomara.

Porque a Copa passou, mas a paixão pelo futebol continua. O Campeonato Brasileiro voltou aos campos. As torcidas voltaram aos estádios. No próximo domingo, o Sport e o Atlético MG se enfrentam na Ilha do Retiro pela série A. O visitante tem uma das torcidas organizadas mais envolvidas com  mortes nos estádios do Brasil. Provavelmente, mais uma vez, famílias inteiras vão vestir a camisa que estava pendurada num cabide especial. Combinar as meias e o sapato. Amarrar a bandeira sobre os ombros. Entoar o hino do seu time de coração… E assistir ao jogo na segurança do sofá de casa.

… A pergunta que fica é a mesma que ressoa nos projetos do deputado: “Até quando?”.

 

 

 

Imagens: reprodução

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