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Biel e gestão de crise: tarde demais para pedir desculpas?

10 de junho de 2016

por Observadora

Cinco dias depois de vir a público a denúncia de uma jornalista do portal iG contra o MC Biel por assédio sexual durante uma entrevista (em que ele a chama de ‘gostosinha’ e diz que a ‘quebraria no meio’), o cantor lançou ontem um vídeo no YouTube em que pede desculpas.

Tarde demais?

Não procuro aqui entrar no mérito da polêmica em si, que já foi amplamente debatida e analisada no contexto da cultura do estupro. Mas quero focar em como a resistência de pessoas públicas e empresas em reconhecer suas ações ofensivas às mulheres, como neste caso, ou negligentes, como no caso Quitandinha, não apenas contribui com uma cultura de desrespeito à mulher, como também pode provocar danos irreversíveis à própria imagem.

Vamos considerar:

O que significam, para a imagem de uma pessoa pública ou empresa, cinco dias de repercussão negativa em redes sociais, sites e grande mídia? Que estragos, ou mesmo prejuízos, a morosidade em encontrar o posicionamento adequado para estancar uma crise pode causar?

Incalculáveis. Mas, em muitos casos, como o de Biel, o risco é total. Primeiro, o convite para conduzir a Tocha Olímpica, em Fortaleza, foi cancelado pelo Comitê da Rio-2016. Depois, veio a reação da Rede Globo. Participações agendadas em programas do Faustão e Huck também foram vetadas. Um golpe acachapante para um cantor em ascensão que acaba de emplacar uma canção na trilha de uma novela.

Mas Biel teve tempo de se preparar para o baque. A denúncia, segundo o G1, foi realizada no dia 11 de maio, uma semana depois do caso. O episódio veio à tona quase um mês depois. Entre a intimação e a exposição pública, teria sido possível articular uma estratégia de prevenção à crise. Teria, se a resistência em reconhecer o delito não tivesse falado mais alto.

Logo que a polêmica eclodiu, o cantor tentou de forma desastrosa se defender nas redes sociais, relativizando o abuso, chamando de brincadeira, piada, descontração, mal-entendido. E dizendo em sua defesa argumentos frágeis como  “nem homem me considero ainda para ser machista”. Até seu pai procurou atenuar a polêmica chamando o episódio de “palhaçada” de moleque.

Obviamente, esse tipo de posicionamento só serviu para inflar mais a revolta do público feminino já injuriado pelas cotidianas histórias de assédio, violência, estupros coletivos e outros abusos.

Embora a violência de gênero esteja posta e clara, parece haver ainda uma cegueira institucional para essa ferida social. Por outro lado, a letargia em encontrar formas de lidar com as controvérsias públicas a esse respeito mostra o quanto empresas e pessoas públicas também têm sido incapazes de enxergar a importância, força e dimensão de um movimento que ressurge: o feminismo.

E, porque são incapazes de enxergar, também são inábeis em lidar. Turbinado pelas redes sociais, o discurso em defesa do direito e respeito igualitários de gênero tem continuamente ampliado a consciência pública para as questões caras às mulheres. É um movimento irreversível. Aceite-se ou não.

Diante desse contexto, há apenas uma saída honrosa: empresas e figuras públicas reverem seus valores e posicionamentos. E serem rápidas em dar respostas satisfatórias numa crise, caso deslizem. Que façam pelas mulheres e também em nome das próprias instituições. Porque cinco dias é tarde demais para o estrago que essa demora pode causar.

Renata Gama é jornalista e empreendedora.

Imagens: reprodução

 

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