Variedades

Eleições presidenciais 2014: um jogo de comadres

30 de abril de 2014

por Observador

Tento enxergar as diferenças entre as propostas de pré-campanha de Eduardo Campos e de Aécio Neves, mas, sinceramente, ainda não consigo. Acredito que nem eles, suas equipes ou mesmo o governo saibam apontá-las. Não há clareza quanto às diferenças entre os dois candidados, se é que seja do interesse deles criá-las. No momento, além de buscarem maior exposição na mídia e atração do empresariado, parece que a estratégia de ambos seja torcer por um maior derretimento da popularidade de Dilma, que hoje caiu para 37% das intenções de voto.

Aécio e Campos compartilham do mesmo discurso de independência do Banco Central (trazido à tona com Fernando Henrique e depois com Lula), de austeridade fiscal e monetária, de continuidade dos programas sociais – mas com “ajustes”, seja lá quais sejam –, de enxugamento da máquina pública, de reformas no pacto federativo em prol de mudanças no Fundo de Participação, entre outras questões. A procura pelos empresários parece idêntica, com as duas “equipes” econômicas preferindo centrar-se mais em críticas contra a inflação na banda superior da meta, o baixo crescimento do PIB e o superávit fiscal cambaleante do que realmente formular propostas.

A ideia parece visar a fortalecer os pontos comuns de ambos os programas, tendo sempre o governo Dilma como destinatário dos ataques. Desse jogo de comadres pode nascer alguma – ainda que mínima – possibilidade de se enfrentarem num virtual segundo turno.

Apesar disso, há algumas pequenas diferenças já visíveis. Campos argumenta que o Mercosul traz amarras à diversificação comercial do Brasil e prega mudanças no bloco, mas sem defini-las exatamente. Aécio, por sua vez, optou por uma declaração infeliz em prol do término da experiência regional nesses moldes. Outro ponto de distanciamento entre PSB e PSDB é que Aécio tem menos “entrada” em regiões mais dependentes economicamente do Estado. Na reunião de Campos na Zona Franca de Manaus isso foi ventilado. Um terceiro ponto é a questão ambiental. Campos tem tentado – pela associação e talvez pressão de Marina – trazer cada vez mais os termos “meio ambiente” e “sustentabilidade” em suas declarações. Mas igualmente não os desenvolve, as palavras ficam no ar. Por último, os primeiros contatos do mineiro e do pernambuco estão focados no grupo empresarial, com pouco apelo – ainda – aos outros grupos sociais (o que, convenhamos, é algo muito parecido com os primeiros três anos de Dilma). O peso de Marina pode dar vantagem comparativa a Campos nessa questão, ainda que sua ligação com o eleitorado evangélico seja contraditória (vale lembrar que a base evangélica ocupou ministério no governo Dilma, com Crivella).

Os discursos dos dois são difusos e mal construídos, especialmente o de Campos. Talvez pela novidade do PSB na corrida presidencial, na aliança difusa com a Rede e pela ideia de associarem as mazelas atuais aos quatro anos de Dilma, mas não aos oito de Lula. Muito menos que o PSDB, o projeto (existe?) parece um tanto esquizofrênico por criticar parcialmente um governo de onde se criou. Por outro lado, optar por uma abordagem mais flexível pode engessar menos o PSB, coisa que o eleitorado parece associar às propostas tucanas; essas seriam menos adaptáveis às circunstâncias.

Além disso, convenhamos, o PT tem sido tomado de dissensos internos e procurado mais se defender (vide Petrobras, inflação, risco de racionamento, etc.) do que atomizar os adversários e deixar claras as diferenças dos possíveis próximos quatro anos em relação a PSB e a PSDB. Acho que essa diferenciação precisa ser maior com relação a Campos, justamente por seu programa fluido e pouco definido comparativamente ao de Aécio.

 

Imagem: reprodução

 

Felipe Leal é jornalista e professor da UFRJ

Siga @ObsFeminino  no Twitter e curta a fanpage do Observatório Feminino no Facebook

 

Leia também:

Festival Economia Criativa pela primeira vez no Brasil
Se os tempos mudaram, os casamentos e os divórcios também
Falta de educação é sinônimo de egoísmo e demonstra complexo de inferioridade

Pesquisar

Perfil

  • Ana Karla Gomes

    Editora Chefe

  • Rose Blanc

    Relações Públicas

  • Talita Corrêa

    Editora-Assistente

  • Estevão Soares

    Colunista

Arquivo

Assine nossa news e receba tudo em primeira mão

Observatório Feminino