Variedades

A multidão irritante de pessoas que não sabem o que querem

25 de outubro de 2016

por Talita Corrêa

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Você tenta sair da escada rolante, mas alguém que não sabe se vai ou se fica entrava a saída. Você quer chegar no trabalho antes de hora, mas meia dúzia de carros escolhe seguir pelo meio da via. O motoqueiro não sabe se para no meio da rua ou se dobra a esquina. O cliente demora meia hora com o cardápio na mão, porque não sabe o quer de bebida. O funcionário faz crachá, contrato, conta  e carteira de plano, mas sai antes do prazo de experiência pra montar uma barraca na praia e vender margarita. O vizinho segura o elevador com o pé, se escora na porta de casa e aperta a campainha. A moça apressada do supermercado muda três vezes de fila. O ciclista usa a contramão da ciclovia.  O cônjuge zapeia a tv da sala todo dia. O amigo desmarca o jantar, remarca, desmarca, vai, não vai, foi, depois disse que não ia. A criança pede cinco tipos de sabor na mesma pizza.

Gente que não sabe o que quer cansa, desgasta, irrita.  No mundo, essa multidão de confusos costuma significar perda de tempo. Na alma, quando os indecisos fazem cena no palco dos relacionamentos, é perda de amor que ela significa:

A pessoa manda mensagem carinhosa, meme de cachorrinho fofo, “Saudades, coisa linda”… Depois resolve sumir. A pessoa fala em encontro de almas, em noite perfeita, em fim de semana na serra. Depois resolve que não é bem assim. A pessoa termina o namoro, depois volta, depois termina, depois volta, depois termina, depois bota a culpa na pressão da família. A pessoa fala que não quer nada sério no fim de semana, mas na segunda-feira aparece apaixonada e comprometida. A pessoa diz que não ama e descobre que ama quando o outro está de boa, noutra vibe, noutra história, noutra sina. A pessoa não assume, não declara, não trepa mas também não sai de cima. A pessoa não encara, não mergulha, não encoraja, mas romantiza. A pessoa manipula, conquista, envolve, seduz, promete, mas não oficializa. A pessoa finge que é namoro, depois diz que é só amiga. Reconhece que tem dez histórias mas que você é a favorita.

Fala que tá feliz pra caralho, mas que  você tem uma onda apressadinha.  Fala que vocês não dão certo, mas são alma gêmeas de outras vidas. Fala que quer mudar e continua errando na mesma rotina. Fala que quer casar, depois fala que quer liberdade e que não gosta de monotonia. Fala que quer ficar, mas que ainda não consultou a astrologia. Fala o que quer, porque acha indecisão uma  delícia.

É essa indeterminação, essa brincadeira com as expectativas dos outros, essa irresponsabilidade com os sentimentos alheios que os instiga. Uma bipolaridade cruel que machuca quem mais acredita. Um jeito de manter por perto os elogios, o interesse, a companhia. Um plano de não dispensar o stand by que quebra o galho, salva do tédio e reanima. Uma mania de não desapegar do que não sabe cuidar como devia. Um egoísmo inquieto, imprevisível, sacana. Um medo de ficar sozinho ou sozinha.

A multidão irritante de pessoas que não sabem o que querem carrega uma multidão de corações irritantes que não sabem pra que servem.

Fuja deles pras colinas.

 

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