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Religiões: para o bem ou para o mal? Uma homenagem a Youcef Nadarkhani

23 de janeiro de 2015

por Observador

Dia desses lembrei-me do iraniano Youcef Nadarkhani. O ditto cujo foi preso, e quase executado. O crime dele consistiu na conversão ao cristianismo. Em pleno século XXI, quando a humanidade já se prepara para ir a Marte, um semelhante nosso arriscou-se a perder a vida por ter feito uma opção religiosa.

Diante deste episódio, minha mente viajou pelos séculos. Voltei aos tempos da Santa Inquisição, quando o destino dos “infiéis” era a tortura e a fogueira. Passei pela colonização do Brasil, época em que tantos religiosos pereceram pregando simplesmente o bem e a tolerância aos gentios. Mirei as cruzadas, palco de tantas atrocidades e derramamento de sangue. E, lentamente, comecei a perceber que, enquanto humanidade, mudamos muito pouco de lá para cá.

Voltando ao tempo presente, entreguei-me a outra jornada mental pelo mundo afora. Comecei em Dubai, onde um estudante foi condenado a quatro meses de cadeia por ter beijado uma colega em público. De lá fui para o Haiti, onde dezenas pessoas tem sido linchadas pelas ruas sob o pretexto de terem causado uma epidemia de cólera através de feitiçaria.

Minha próxima escala seria no Congo, onde a maioria da população – 90%, para ser exato – acredita que a AIDS é fruto de bruxaria. Fui, então, para Barafkhana, na Índia, onde Sadhana Devi cortou a própria língua como uma oferenda religiosa em prol do casamento de seu filho.

Parti para a Malaysia, onde a maioria da população culpa os deuses pelos desastres naturais que lá acontecem. Meu próximo destino seria Moçambique, onde duas pessoas foram linchadas em praça pública por serem adeptas de bruxaria. Passei também pelo Burundi, onde pessoas albinas são frequentemente sequestradas e sacrificadas em rituais religiosos. Ali do lado, na Tanzânia, descobri que 53 albinos foram sacrificados nos últimos anos – e os pedaços de seus corpos vendidos para rituais de feitiçaria.

Tive notícias de sacrifícios humanos também no Bangladesh – lá, porém, de crianças. Segundo consta, de um lado estão feiticeiros raptando e sacrificando até bebês, e do outro os pais praticando o linchamento como forma de justiça. Há também o sacrifício de mulheres que se atrevem a não observar devidamente os mandamentos religiosos. Esta mesma prática é observada em algumas regiões da Índia, onde recentemente a polícia descobriu o esqueleto de uma menina de apenas seis anos de idade sacrificada durante um ritual.

Chegando à Somália, descobri que rádios não podem transmitir músicas e que quem apara a barba vai parar em uma cela – segundo consta, busca-se com isso a pureza religiosa.

Dirigi-me à Rússia, onde Dmitry Kazachuk, uma inocente criança de apenas quatro anos de idade, morreu durante um ritual de exorcismo praticado por dois xamãs coreanos, So Dyavor e Kim Sende.

No Paquistão, deparei-me com o caso das mulheres mortas pelos pais quando estes não aprovam um simples namoro – aliás, o último caso de que tive notícia foi o de uma execução por choques elétricos.

Decidi encerrar minha viagem pelos Estados Unidos da América, onde um fabricante de armas decidiu imprimir nos fuzis utilizados pelas Forças Armadas versículos da Bíblia.

Diante do que vi no seio de uma humanidade que se pensa tão evoluída, fiquei a pensar na doída acusação de Blaise Pascal: “nunca o ser humano pratica o mal tão completamente e com tanto prazer como quando o faz por convicção religiosa”.

Pedro Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Tem textos publicados no Congresso em Foco e no jornal Folha do Espírito Santo.

Imagem: reprodução

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