Variedades

O Brasil desde a tragédia no útero

3 de julho de 2017

por Talita Corrêa

Viver no Brasil é um desafio à matemática, à ciência, à história, à sociologia, à antropologia… À razão. Estamos enfrentando um tempo de guerra tão lamentavelmente institucionalizado, que nos acostumamos a engrossar as estáticas dos assaltos, dos assassinatos, dos estupros, dos carros roubados, sem resistência de compreensão. Nos acostumamos de uma maneira tão triste e profunda ao martírio, que esse nosso ‘’viver em morte’’ ressignificou, sem sorte, o nosso jeito de morrer. Levamos um tiro e ficamos na rua, de corpo atravessado, até alguém vim socorrer. Somos vítima de bala perdida e viramos um cálculo quebrado, que o Estado vai esquecer. E se isso já não fosse demasiado desumano e triste, estamos agora criando nosso conceito de vítima antes de nascer.
Lá, na barriga da mãe, no silêncio do útero, no quentinho da escuridão, escondidos do mundo, à espera do novo, já somos alvo, já somos número, já somos dados, já somos morte sem recém-nascer.
O tiroteio que nesse fim de semana atingiu uma grávida no Rio, e baleou um não chegado bebê, criou a primeira certidão de nascimento pelo quase morrer. A primeira vítima da violência antes do parir, o primeiro guerreiro da sobrevivência antes de viver.
Isso não faz sentido nem aqui, o país da desgraça que se reinventa e fortalece com a pressa das tintas dos prelos de jornal. Isso não faz sentido nem nas trevas, nas guerras, nas eras de devastadora recessão. É uma monstruosidade de indiferença à vida, ao outro, ao feto, ao nexo.
Tratamos o sofrimento como fardo do todo. Do asfalto ao morro, do morro pra dentro. Culpamos o Estado sem nome, porque o Estado não é gente. Fugimos da derrota que nos consome, e não sabemos quem nos vence. O fuzil não tem rosto. O assalto não tem dono. A bala não tem percurso. A morte não tem valor. A vida não tem socorro. Somos nada, antes, durante e depois da luz. Somos o escuro. Antes, durante e depois de ser.
Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me. Não-se-a-cos-tu-me.
Quem se acostuma aceita. Quem aceita desafia outra lógica e é dado como morto antes mesmo de morrer.

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