Variedades

Ogro é ogro. Príncipe é príncipe. BBB é BBB

22 de março de 2017

por Talita Corrêa

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Não sou só cronista. Trabalho, entre outros mil malabarismos, com gerenciamento de redes sociais. Mergulhada no Instagram diariamente, vejo muitas coisas do mundo online. Coisas legais, curiosas, novas, edificantes, rasas, e outras que não procurei ver.

Semana passada, assisti, aleatoriamente, a um vídeo dessa atual edição do Big Brother Brasil, no qual um participante chamado Marcos enumerava as qualidades da garota com a qual, segundo eu soube depois, ele se relaciona:

“Tu és bonita. Beija bem, transa legal”.

Aquilo me incomodou esôfago adentro.
Busquei acompanhar trechos desse programa na última semana, mesmo com meu marido perguntando porque eu estava passando por tamanha tortura.

O programa é ruim. Sei disso desde quando, trabalhando no Rio, fui obrigada a cobri-lo por alguns meses antes de pedir demissão. É ruim não pela premissa. Somos seres curiosos, abastecidos de empatia, às vezes meio abutres, meio antropólogos, meio espelhos, meio irmãos. A gente se interessa profundamente pelo outro.

É ruim pelo conteúdo como um todo mesmo. Pelos personagens clichês e desinteressantes, pela exploração do ser humano não como descoberta, mas como ridicularização, escravidão e adoecimento. Pelas forçadas da edição, pela condução maldosa, pela sexualização torta das pessoas, e objetificação (pra variar) das mulheres.

Sempre soube disso, mas, dessa vez, o tal BBB me incomodou um pouco mais. Não sei se isso é fruto desse nosso processo de politização e libertação feminina, que nos torna constantemente mais críticas e perspicazes.

Aquele tal participante, Marcos, é 20 anos mais velho que sua namorada de confinamento, a Emilly. Uma semana assistindo aquilo e você já consegue ter uma aula sobre relacionamento abusivo. Daqueles bem típicos e clássicos, sabem?

Todas as discussões da dupla terminam com ele dizendo à menina que ela precisa crescer, trocar as fraldas. Ele diz que não quer mais ela. Ela diz que concorda. Se acredita madura, forte, autossuficiente. Pouco depois, corre para pedir desculpas, com medo de ficar sozinha, ou sucumbe às investidas dele para dormirem juntos e curtirem o edredom sem pudores com o microfone.

O cara faz o tipo príncipe. Deixa flores na cabeceira da menina durante dias. Faz café da manhã, bota no colo e diz estar apaixonado. Ela resiste. Depois que aceita ficar com ele e vira protagonista de memes com teor sexual nas redes sociais, ele vira ogro. Impaciente. Coloca a mão no ouvido quando ela fala. Vira as costas. Fala exatamente tudo que desestabiliza uma menina de 20 anos. Humilha, provoca. Ela chora. Ele acolhe de novo, se mostra indispensável, especial, maduro, ”muito para ela”. Depois tem prazer em provocar ciúmes na menina. Elogia e olha a participante que a faz sentir ameaçada. Se diverte. A casa critica. A menina chora. Ele não se desculpa. Ela deixa pra lá. E o ciclo recomeça.

Cada diálogo dos dois me parece um workshop intragável de gaslighting (tu és louca, mimada, ninguém gosta de ti. Eu que te aguento. Mas não tô aguentando mais), mansplaining (vem cá, deixa eu te explicar algumas coisas óbvias da vida, porque já sou um cara bem-sucedido, maduro, preparado, viajo) e manterrupting (ele fala, fala, fala, quando ela rebate, ele altera a voz, corta, diz que está cansado dela e é por conta daquilo que não tem namorada. Mulher chata fala muito. E revira os olhos).

Vi ali um exemplo quase cirúrgico dos relacionamentos tristes que já li por aqui, no OF, ou nas rodas de amigos. Um cara manipulador capaz de jogar a cabeça de uma mulher vulnerável no lixo.

Comentei isso com alguns conhecidos no trabalho. Ouvi de volta que ela não é “flor que se cheire”, “ela é danada”, “a novinha é virada”, “ela é interesseira, chata…” e isso e aquilo.

Uma pena. Tudo que a gente tenta combater, desconstruir e descortinar na nossa luta diária contra o machismo exposto ali, para alguns milhões de adolescentes, como se fosse um relacionamento comum e saudável. Pior. Como se fosse “um romance”.

Talvez, Emily seja mesmo uma garota mimada e deslumbrada (pelo pouco que vi, desconfio que sim). Talvez, Marcos seja um cara legal em vários aspectos (?) e até leve o prêmio vencedor. Mas não é disso que o texto trata. Mulheres imaturas também sofrem violência psicológica e nem por isso são merecedoras . Homens bacanas também são machistas e nem por isso são inocentes. Uma configuração de opressor e vítima não é, necessariamente, sinônimo de mocinha e vilão.

“Tu és bonita. Beija bem, transa legal”. Uma frase dessa, pra mim, tem uns três tapas invisíveis no rosto de uma mulher. É de uma violência sutil, cruel, poderosa. Reduz a autoestima da mulher a ponto de fazê-la pensar que não tem nada a oferecer além do próprio corpo. Elogia o sexo dela a ponto de fazê-la se sentir resumida àquela função, mas não a ponto de deixá-la pensar que ela é boa demais ou insubstituível naquilo. “Legal” é um adjetivo certeiro. Maltrata como nenhum outro. Tudo feito de maneira discreta, esmagadora e pontual. Bem como é o machismo que enfrentamos no nosso cotidiano. Aquele que finge estar desarmado e ser inofensivo.

Mas… palavras são foices (que violentam nossa alma como se não fossem).

#artigo

#observatoriofeminino

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