Variedades

Projeto fotográfico traduz a dor de vítimas da violência obstétrica

18 de março de 2014

por Talita Corrêa

Ainda não sou mãe, mas tenho a impressão de que a mulher – mesmo aquela que não quer ter filhos – nasce com uma espécie de respeito e solidariedade natural ao milagre da maternidade. Crescemos com uma próxima imaginação do que é carregar outro ser nosso corpo tão cheio de forças e vontades. Entendemos que jamais conheceremos algo tão avassalador quando dar à luz uma criança, mesmo que jamais decidamos fazer isso.

Não é por acaso que o projeto 1:4 – Retratos da violência obstétrica, criado há exatamente um ano pela fotógrafa Carla Raiter e pela produtora cultura Caroline Ferreira, tem ganhado tantas militantes no Brasil. “Uma em cada quatro mulheres brasileiras que deram a luz em hospitais públicos ou privados relatam algum tipo de agressão durante o parto”. Esse é o horror apontado pela pesquisa de Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado, feita pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC, em 2011, e contra o qual Carla e Carolina lutam.

Neste mês de março, quando o projeto faz aniversário e o dia da mulher compele uma série de comemorações, nada mais justo que destacar a causa da mãe do Gael, de 2 anos, que defende humanização do nascimento depois de ter vivido a experiência de um parto respeitoso e da mãe da Luísa, que  há 11 anos viveu a experiência triste de um parto violento.

“O 1:4  busca materializar as marcas invisíveis deixadas por esse tipo de violência e traz à luz uma reflexão sobre a condição do nascimento no Brasil e as intervenções desnecessárias que ocorrem no momento do parto. A violência obstétrica pode se manifestar no impedimento de ter um acompanhante no parto, na falta de liberdade para escolher onde e como parir, na privação de água e alimentação, na falta de um carinho no momento da dor, no protagonismo que não foi permitido. Muitas mulheres sofrem caladas essas e outras violências vividas no corpo e na alma em um momento de suas vidas em que deveriam se sentir plenas, respeitadas e renascendo junto a seus filhos. Mulheres rompem o silêncio e têm suas histórias retratadas em partes de seus corpos, em uma linguagem que as trata de forma serializada, anônima e sem considerar sua individualidade, assim como fazem os protocolos médicos nas maternidades públicas e privadas brasileiras”, destacam suas idealizadoras na página do projeto.

Ambas dizem acreditar que lutar contra a violência obstétrica é o primeiro passo para uma mudança de cultura em direção à humanização do parto e para que todas as mulheres, de todas as classes, tenham o direito de serem respeitadas durante o nascimento de seus filhos.

Elas destacam os porquês de a violência obstétrica ser ainda tão cruel e silenciosa no país:

– Atinge dois seres que estão vulneráveis, e ao mesmo tempo: a mãe e o bebê. Às vezes atinge também o acompanhante, em geral o pai do bebê.

– É perpetrada por um grupo que tem o domínio (equipe profissional) em seu próprio campo de batalha (o hospital, a sala de parto).

– Muitas vezes não tem testemunha (a equipe se cala, o acompanhante muitas vezes foi impedido de assistir o parto).

– Não é reconhecida pela sociedade, que entende que os profisssionas sempre estavam fazendo o seu melhor e que provavelmente a mulher é quem não colaborou/se comportou.

– Tem quase 100% de impunidade, pois as poucas denúncias caem no buraco negro dos conselhos profissionais e sindicâncias intermináveis.

– Pode causar graves sequelas físicas e psicológicas e, em raros casos, a morte.

– Atinge um número absurdo de mulheres em nosso país, se considerarmos todas as suas formas. Podemos estar chegando perto de 100% de mulheres que foram ou serão submetidas à violência obstétrica durante seus partos.

São atos de violência obstétrica:

– Impedir que a mulher seja acompanhada por alguém de sua preferência, familiar ou de seu círculo social.

– Tratar uma mulher em trabalho de parto de forma agressiva, não empática, grosseira, zombeteira ou de qualquer forma que a faça se sentir mal pelo tratamento recebido.

– Tratar a mulher de forma inferior, dando-lhe comandos e nomes infantilizados e diminutivos, tratando-a como incapaz.

– Submeter a mulher a procedimentos dolorosos desnecessários ou humilhantes, como lavagem intestinal, raspagem de pelos pubianos, posição ginecológica com portas abertas.

– Impedir a mulher de se comunicar com o “mundo exterior”, tirando-lhe a liberdade de telefonar, usar celular, caminhar até a sala de espera etc.

– Fazer graça ou recriminar por qualquer característica ou ato físico como, por exemplo, obesidade, pelos, estrias, evacuação etc.

– Fazer graça ou recriminar por qualquer comportamento como gritar, chorar, ter medo, vergonha etc.

– Dar bronca, ameaçar, chantagear ou cometer assédio moral com qualquer mulher/casal por qualquer decisão que ela possa ter tomado, quando essa decisão for contra as crenças, fé ou valores morais de qualquer pessoa da equipe, por exemplo: não ter feito ou ter feito inadequadamente o pré natal, ter muitos filhos, ser mãe jovem (ou o contrário), ter tido ou tentado um parto em casa, ter tido ou tentado um parto desassistido, ter tentado ou ter efetuado um aborto, ter atrasado a ida ao hospital, não ter informado qualquer dado, seja intencional, seja involuntariamente.

– Fazer qualquer procedimento sem explicar antes o que é, por que está sendo oferecido e, acima de tudo, SEM PEDIR PERMISSÃO.

– Submeter a mulher a mais de um exame de toque (ainda assim quando estritamente necessário), especialmente por mais de um profissional, e sem o consentimento, mesmo que para ensino e treinamento de alunos.

– Dar hormônios para tornar mais rápido e intenso um trabalho de parto que está evoluindo normalmente.

– Cortar a vagina (episiotomia) da mulher quando não há necessidade (discute-se a real necessidade em mais que 5 a 10% dos partos).

– Dar um ponto na sutura final da vagina de forma a deixá-la menor e mais apertada para aumentar o prazer do cônjuge (“ponto do marido”).

– Subir na barriga da mulher para expulsar o feto (manobra de Kristeler).

– Submeter a mulher e/ou o bebê a procedimentos feitos exclusivamente para treinar estudantes e residentes.

– Permitir a entrada de pessoas estranhas ao atendimento para “ver o parto”, quer sejam estudantes, residentes ou profissionais de saúde, principalmente sem o consentimento prévio da mulher e de seu acompanhante com a chance clara e justa de dizer não.

– Fazer uma mulher acreditar que precisa de uma cesariana quando ela não precisa, utilizando de riscos imaginários ou hipotéticos não comprovados (o bebê é grande, a bacia é pequena, o cordão está enrolado).

– Submeter uma mulher a uma cesariana desnecessária, sem a devida explicação dos riscos que ela e seu bebê estão correndo (complicações da cesárea, da gravidez subsequente, risco de prematuridade do bebê, complicações a médio e longo prazo para mãe e bebê).

– Submeter bebês saudáveis à aspiração de rotina, injeções e procedimentos na primeira hora de vida, antes que tenham sido colocados em contato pele a pele e de terem tido a chance de mamar.

– Separar bebês saudáveis de suas mães sem necessidade clínica.

Se você, mulher, foi submetida a qualquer um desses atos de violência, denuncie. Não permita que a violência se perpetue. Será necessário que milhares de mulheres se ergam e digam basta, até que as mulheres parem de sofrer. O parto é um momento de alegria, de prazer. A dor fisiológica é suportável. Mas a dor da violência, essa pode se tornar insuportável e deixar profundas marcas.

Para denunciar:

1) Exija seu prontuário no hospital (ele é um documento seu, que fica depositado no hospital, mas as cópias devem ser entregues sem questionamento e custos).

2) Escreva uma carta contando em detalhes que tipo de violência você sofreu e como se sentiu.

Se o seu parto foi no SUS, envie a carta para a Ouvidoria do Hospital com cópia para a Diretoria Clínica, para a Secretaria Municipal de Saúde e para a Secretaria Estadual de Saúde. Se o seu parto foi em hospital da rede privada, envie sua carta para a Diretoria Clínica do Hospital, com cópia para a Diretoria do seu Plano de Saúde, para a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde. Existem outras instâncias de denúncia, dependendo da gravidade da violência recebida, mas um advogado deveria ser consultado.

 

Abaixo, o resultado do 1:4, que tem ganhando a internet:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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