Variedades

Roger Moreira, o caso da menina do Masterchef e o #PrimeiroAssédio: nós queremos vomitar

23 de outubro de 2015

por Talita Corrêa

Uma menina de 12 anos, com jeito de uma menina de 12 anos, com roupas de uma menina de 12 anos, com corpo de uma menina de 12 anos, com rosto de uma menina de 12 anos, virou, nesta semana, protagonista do pior submundo adulto. Ao aparecer, entre outras crianças, como uma das participantes do programa Masterchef Júnior Brasil, cujo primeiro episódio foi exibido pela Band no último dia 20, Valentina passou a ser citada nos corredores do Twitter por uma turma de doentes criminosos protegidos, à socapa, pela  carranca virtual de meros engraçadinhos.

 

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O mundo real sacou, às pressas, os celulares. Depois, procurou qualquer banheiro público para vomitar. Refeito, passou a se perguntar quantos séculos faltam para a cultura do estupro, a tragédia da pedofilia e a miséria do machismo serem discutidos com seriedade e educação. Quanto tempo falta para que covardes do frio terreno cibernético sejam presos em celas quentes sem wi-fi. Porque, em alguma verdade, todo criminoso de Twitter, Facebook, Whatsapp e afins, é um criminoso à paisana nas ruas. Um filho adotivo da oportunidade.

Logo que o caso ganhou as redes, o coletivo feminista Think Olga, que luta contra o assédio em espaços públicos e outros tipos de violência contra a mulher, lançou a hashtag #primeiroassédio no Twitter, incentivando mulheres a falar sobre a primeira vez que elas foram assediadas em suas vidas.

 

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Antes que a semana terminasse e essa revolta online fosse suprimida por outra, o cantor e compositor Roger Moreira, da já não tão famosa Ultraje a Rigor, apareceu para lembrar que a internet é também um gigante estrumeiro de potencial bem aproveitado. Um terreno profícuo de idiotização. Condutor do mal esterco e de gente perdida.

Apesar de nunca ter sido engraçado, Roger é experiente na arte de ser um ridículo cibernético… Desses que achincalham as vítimas da ditadura e acham que todo problema do Brasil se resume a uma contenda política entre esquerda e direita.

 

rogerCoube ao dono do hit “A gente somos inútil” passar, nesta quinta-feira, 22, uma vergonha desnecessária: “#primeiroassédio Acho que eu tinha uns 10 anos. Uma empregada me deixou pegar nos peitos dela. Foi bom pra cacete”.

A piada sem graça no Twitter não ficou só no campo dos manés sem palmas. Virou uma discussão pra lá de nauseante para qualquer internauta de bom senso, de bons modos, de boas intenções, de bom gosto e, ou, de bons princípios.

Aquele senhor de quase 60, responsável por algumas músicas de bons trocadilhos nos anos 80, não entendeu o alvoroço de tuítes que causou depois: “O ódio é porque eu ridicularizei a iniciativa exibicionista e estéril dos vermelhinhos. Como se estivessem salvando o mundo dos tarados (…) Que mané sério? Homem gosta disso, porra!”. Os tuiteiros de novo reagiram. E lá se foram umas nove horas de troca de farpas vaidosas e ócio admitido. “Burra, cretina, idiota”. Uma feira de misoginia nas respostas do galhofeiro de araque. 

Queria a gente acreditar que a banda Ultraje virou de novo qualquer coisa interessante para o rock brasileiro e que o Roger arriscou uma daquelas ironias que só depois da polêmica o público entende. Que, nessa semana controversa para as portas do debate feminino (quando a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou projeto que torna crime ajudar mulher a abortar), Roger só queria provocar nossa imaginação crítica e nos obrigar a pensar.

Pensar, por exemplo, que a velha piada do menino de 10 anos pegando no peito da empregada não é tão desgraçada quanto a piada da menina de 8 anos pegando no pênis do copeiro.

Não é.

(Desculpe-nos, Valentina, por ajudar a grifar seu nome nesse calçadão sujo que pode ser o Google, sobretudo para uma garotinha que tem a vida só começando)

(A descrição de uma menina de 12 anos, com características de uma menina de 12 anos, só serve para confrontar a teoria imbecil de que vítimas de assédio têm algum perfil culposo em comum. Não têm. Se Valentina, com seus 12 anos, tivesse jeito de uma adolescente de 16 anos, usasse roupas de uma mulher de 20 anos, mostrasse corpo de uma garota de 14 anos, e rosto de uma moça de 17 anos… Ela ainda seria vítima e os criminosos continuariam sendo criminosos)

 Observe mais: Mais amor na web, por favor

#Não quero ouvir nem mais um pio

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