Variedades

Se o amor move montanhas, o que move o amor?

28 de junho de 2017

por Observador

“O amor move montanhas” é o que muita gente costuma afirmar por aí. E não discordo! Pois já vi coisas incríveis – e que me pareciam completamente impossíveis – acontecerem graças ao amor e, somente, a ele. Mas será que apenas o amor – mesmo sendo ele do magnífico tipo que anestesia nossas mãos quando resolvemos escrever declarações quase infinitas – é suficiente para mantermos uma relação viva e imune à acidez do tempo?
Depois de muito amar e, principalmente, de presenciar o naufrágio de relações nas quais o amor sobrava – mas faltava esforço para superar obstáculos –, eu percebi que a disposição diária para mover as muitas montanhas que a vida coloca entre os casais é o que, de fato, faz com que uma relação sobreviva ao passar dos anos e ao inevitável desgaste gerado por longas convivências.
Explico: de nada adiantará uma química que arrepia até a alma, um tesão que chega a doer quando não pode ser morto e um amor que nos enlouquece mais do que conhaque se não houver empenho constante – muito empenho mesmo! – para que o laço permaneça atado; na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, e, especialmente, quando chutar o balde – e mandá-lo para a puta que o pariu – lhe parecer a melhor solução para findar discussões que, com poucos minutos de silêncio e vaidades domadas, simplesmente morrem, sem deixar qualquer sequela ou palavras dolorosamente inesquecíveis.
O que realmente mantém as relações respirando, meus caros, não são os demorados beijos dados enquanto o sol mergulha no mar ou os reencontros cinematográficos que acontecem na frieza dos aeroportos. Claro que não! Observe atentamente os relacionamentos que já fizeram muitos aniversários e, certamente, perceberá que todos eles têm algo em comum: são formados por pessoas que, em vez de dizerem “Acabou!” – ou “Assim não dá!” – quando se veem diante de uma pedra no caminho, simplesmente enchem o peito de ar e, decididamente, afirmam: “Vamos superá-la, meu bem. E faremos isso juntos!”. E assim fazem, pedregulho após pedregulho.
Não estou dizendo que toda relação precisa durar séculos para ser considerada bem-sucedida ou que devemos aguentar parceiros que não nos respeitam. Bem longe disso! Digo, apenas, que o sucesso das relações é algo que está diretamente ligado à vontade de fazê-las darem certo que os envolvidos nela demonstram e, principalmente, à capacidade de transformar tal vontade em perdão dito em voz alta, em sabedoria para ceder ao desejo que é só do outro e em inteligência para perceber quais são as discussões que precisam ser levadas à mesa e quais, certamente, não gerarão nada além de desgaste e mágoas.
Em minha opinião, uma atitude com inegável potencial de comprovar que você está verdadeiramente disposta a atravessar tempestades e a enfrentar orgulhos para permanecer junto com o seu parceiro é, também, uma maravilhosa – e talvez a mais admirável – maneira de dizer “eu te amo”. Por quê? Porque demonstra que você é bem diferente de muitos indivíduos desta geração, que encaram os parceiros como meros smartphones, ou seja, ao primeiro sinal de defeito ou quando se veem diante da tentadora luz de uma novidade, fazem o descarte daquilo que poderia ser reparado ou o trocam pelo atrativo – e geralmente ilusório – brilho daquilo que nunca tiveram.
Quanto mais obstáculos, olhos gordos e cascavéis o casal enfrenta junto, mais forte e difícil de ser rompido o vínculo entre as partes se torna. Chegando, até, ao incrível ponto de pensarem: “O que é uma sogra morando conosco perto dos leões que já enfrentamos?”.
Por Ricardo Coiro – Vive entre o soco e o sopro. Morre de medo do morno e odeia caminhar em cima do muro. Acha que sensibilidade é coisa de macho e que estupidez é atitude de frouxo. Nunca recusou um temaki ou um café. Peca todo dia. Autor do livro Confissões de um Cafamântico.
Edição: Josilene Corrêa

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